Publicado em 04 mar 2026
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por Karina Medeiros de Lima •
A 18ª Semana do Artesão 2026 começa na quarta-feira,18 de março, com sua cerimônia de abertura na Esplanada Ferroviária, a partir das 18 horas. Na ocasião, será feita homenagem aos artesãos que se destacaram em sua história com o artesanato: Marilde Cecilia Ferreira de Rio Verde; Senhor Luiz Gonzaga de Oliveira –“Luizinho” de Campo Grande e Elizabeth Antunes Marques -“Beth Marques”. Logo depois, haverá apresentação cultural com o duo Borba Nonnato. A cerimônia é aberta ao público.
Um dos homenageados deste ano, Mestre Luizinho (Luiz Gonzaga de Oliveira) nasceu no interior da Bahia,,em Ipiaú, no leito do Rio das Contas. Ele completa hoje 80 anos e desde os oito anos de idade ele começou a ter contato com o barro, com a cerâmica e começou a fazer peças no torno.
Ele chegou em Campo Grande com mais ou menos 45 anos, saindo da Bahia e querendo ir para o Peru, Colômbia, Venezuela, mas se deparou com um surto de cólera nesses países e ele teve que ficar aqui em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, então ele aproveitou isso e foi sondar o mercado, quem trabalhava, quem não trabalhava com cerâmica por aqui, conheceu vários artesãos na época e acabou fixando residência.
“Eu o conheci em 2010 e nós acabamos fazendo uma parceria muito boa. Ele trabalha por conta própria. Ele é um profissional autônomo, mas ele trabalha fazendo peças para outros ceramistas. É que aqui em Mato Grosso do Sul nós não temos essa cultura, mas o Mestre Torneiro, ele é o mestre que acompanha o ceramista nos seus desenhos, no seu design de peça e executa, porque ele faz uma produção muito grande a confecção da cerâmica no torno por uma pessoa que tem a habilidade, a rapidez que ele tem, é uma produção muito alta, de grande quantidade. Então, ele presta esse serviço para vários artesãos e ceramistas aqui do estado”, diz a artesã Andrea Lacet, que falou sobre o amigo e companheiro de trabalho, já que o Mestre Luizinho está em idade avançada e enfrenta problemas de saúde.
O mestre Luizinho é o único mestre torneiro de Campo Grande. “Então ele atende várias pessoas. Aqui no ateliê eu já tenho alunas que estão num estágio mais avançado, já tem ateliê e tudo mais. Então quem auxilia na produção das peças de encomenda, de venda, tudo é ele. Para mim também. As peças de grande porte, grande tamanho, todas quem executa é ele. E não só aqui no ateliê. Ele presta serviço no ateliê de várias pessoas. Então toda a produção em grande escala é praticamente desenvolvida por ele. Porque a gente pega a base da peça. Ele levanta no torno e faz os acabamentos quando precisa colocar alça, esmalta e vende. Então assim, ele tem uma alta rotatividade de clientes e com isso ele alavanca toda a produção do ramo da cerâmica artesanal dentro de Campo Grande”, diz Andrea.
Outra grande homenageada da Semana do Artesão é Elizabeth Marques, que iniciou na cerâmica quando criança na barranca do rio lá na fazenda a fazer panelinhas, “ali já tive um gosto pelo artesanato”. “Comecei a trabalhar em outras profissões, mas como tinha filho pequeno, antigamente era mais difícil, não tinha creche, era muita dificuldade, eu não tinha dinheiro, então eu optei pelo artesanato, vendia em feiras, em sou ceramista, eu também entalho em madeira, também faço tecelagem, mas o meu foco hoje em dia é cerâmica, faço São Francisco pantaneiro, Nossa Senhora pantaneira, porque a minha Nossa Senhora Aparecida tem um cacho de ipê na cabeça, e assim eu faço indígenas, bustos de indígenas, bichinhos do pantanal, eu vou fazendo de tudo um pouco, todo ano eu invento uma coisa nova. Eu comecei com onças, sou autodidata, tudo que eu fiz fui eu mesmo, fazendo, quebrando, até hoje fazendo tudo certinho, tudo fácil, consegui ganhar dinheiro”.
Elizabeth fala sobre a parceria com o Sebrae: “Depois de longos anos entramos em parceria com o Sebrae, que me abriu portas quando me levou para a caravana em Minas, que foi o primeiro abrir de olhos meu quando nós íamos para as oficinas, nos ateliês das pessoas, a feira Mão de Minas, me encantou aquela variedade de cores, de jeito de cada um. Eu sou colorida, minhas peças são todas coloridas, eu gosto de cor, eu acho Mato Grosso do Sul é cor, nós somos um estado colorido, de árvores, de flores, de frutos, então eu gosto de carregar esta alegria que o meu estado me dá. O Pantanal é a nossa reverência, vamos colorir. Estou trabalhando, consigo me sustentar, ajudei meu filho a se formar, tudo através do artesanato, através do Sebrae, da Fundação de Cultura com as rodadas de negócios que a Fundação nos proporcionou. Eu gosto do diferente, eu fui para Corumbá uma época dar cursos sobre o casario de Corumbá, eu gosto do diferente, o que tem de novo para eu fazer, me alegra. Eu sou um espírito sempre em busca de coisas novas, um espírito de bandoleiro que não consegue ficar quieto num lugar só, não consigo produzir uma ou duas coisas, eu sempre estou inventando mais, hoje em dia eu faço totem com cabeça de onça, com cabeça de indígena, e assim vai indo, vou inventando e criando e sendo feliz”.
Marilde Cecília Ferreira, de Rio Verde, trabalha com artesanato há 23 anos, fazendo peças utilitárias e decorativas em cerâmica. Natural de Jaú, estado de São Paulo, mora em Mato Grosso do Sul desde os 11 anos, atualmente está com 68 anos. “Aqui onde eu moro, em Rio Verde, não tem tanta opção para trabalho, a não ser o serviço doméstico. Em 2003 o Sebrae trouxe o curso de Modelagem em Argila. Aí eu fiz o curso no Senai, primeira etapa foram 35 dias de aula, segunda etapa mais 15 dias, éramos 28 pessoas fazendo o curso, quando terminou eu resolvi dar continuidade ao trabalho e chamar mais algumas pessoas para trabalhar, onde eu fundei a Riverarte, sou uma das sócias fundadoras, e em 2010 eu me desliguei da Riverarte e fui tocar o meu artesanato sozinha, fui orientada a fazer o MEI”.
A talentosa artesã participou de uma competição do Sebrae e ficou entre os 100 melhores artesãos do país. “Colocamos Rio Verde nos cem melhores do Brasil, top 100, isso em 2006. Aí em 2021 teve uma premiação do primeiro lugar de Mato Grosso do Sul, ganhei primeiro lugar. Dei aula na TV Educativa em 2021, uma oficina, e desde que eu iniciei eu não parei de trabalhar. Eu trabalho mais com peças utilitárias, tenho peças em restaurantes em Campo Grande, tem em Bonito, em vários lugares. Eles gostam muito do meu trabalho pelo acabamento fino porque vai pôr alimento nas peças. Tenho 23 anos na área, hoje estou capacitando pessoas para dar continuidade ao meu trabalho, ganhei um projeto do FIC em 2023, em que eu ministrei quatro oficinas, sendo três em Rio Verde e uma em Coxim, o pessoal quer que eu ministre oficinas porque eu dou do básico ao acabamento porque eu quero que as pessoas trabalhem e já comecem a ganhar dinheiro”.
“O artesanato na minha vida significa tudo, que é o meu trabalho, eu fiz do artesanato a minha profissão. É onde eu tiro o meu dinheiro para pagar minhas contas, comprar alguma coisa. Em 2024 eu comprei meu carro, paguei a vista com o dinheiro do artesanato. Então, para mim, o artesanato é tudo. E essas pessoas que eu quero capacitar também, eu quero que elas ganhem com o artesanato, porque muita gente fala assim, ah, artesanato não dá, não dá se você não fizer. Porque a partir do momento que você faz um trabalho, faz um trabalho bem feito, com amor, com dedicação, ganha dinheiro. Só não ganha se não quiser. Para mim, o artesanato é tudo”.







