Brinquedos que curam: artesã transforma terapia em afeto na Semana do Artesão
  • Publicado em 23 mar 2026

    por Marcio Rodrigues Breda •

  • Começar do zero, em meio a um período difícil, foi o que levou a artesã Sibele Forato Ferreira a redescobrir um caminho de afeto, criatividade e sustento. Neste domingo (22), ela ministrou a última aula da Oficina de Confecção de Brinquedos Infantis durante a 18ª Semana do Artesão, realizada pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, compartilhando com o público não apenas técnicas, mas uma trajetória marcada por reinvenção.

    A entrada no universo das bonecas de pano aconteceu durante a pandemia de Covid-19, quando Sibele precisou recorrer à terapia ocupacional para se recuperar. “Comecei para ajudar o processo de cura. Fui fazendo, juntando, e quando vi já tinha mais de cem bonecas em casa”, relembra. O que começou como um exercício de cuidado pessoal logo se transformou em fonte de renda.

    Apesar do impulso inicial ter vindo de um momento delicado, o artesanato sempre esteve presente em sua vida. Incentivada pela mãe desde a infância, Sibele aprendeu técnicas como bordado, pintura em tecido, tricô, crochê e corte e costura. Ao longo dos anos, também construiu uma trajetória profissional ligada ao universo infantil — foi professora de educação artística por cinco anos e trabalhou por mais de uma década com decoração de festas.

    Hoje, toda essa bagagem se reflete nas bonecas que produz: peças pensadas exclusivamente para o brincar. “Nunca quis fazer boneca decorativa. As minhas são para as crianças brincarem de verdade, trocar roupa, sapato, cabelo”, explica.

    Feitas apenas com panos e linhas, as criações ganham formas diversas, como bonecas, pescaria de peixinhos, coquinho e jogo da velha, carregando um diferencial que vai além da estética: cada peça é única. “São brinquedos que acolhem. Não machucam como o plástico. As crianças se apegam, dormem com elas, não soltam mais”, conta.

    A resposta do público, especialmente das crianças, confirma esse vínculo afetivo. Muitas voltam não apenas para adquirir novas peças, mas para complementar as que já possuem. “Tenho clientes pequenininhas que voltam para comprar roupinhas para as bonecas. Elas criam um vínculo muito forte”, relata.

    Atualmente, o artesanato se tornou sua principal fonte de renda. E, além da produção, Sibele também encontrou nas oficinas uma forma de compartilhar conhecimento — prática que se intensificou após sua participação em associações de artesãos, como a Artemis e a AME, que promovem ações colaborativas e atividades em espaços públicos.

    “Eu já fui professora, então ensinar é algo natural para mim. E o público gosta, participa, principalmente as crianças”, afirma.

    Brinquedos que se multiplicam

    Com nove participantes, a oficina dissemina técnicas que farão a alegria de muitas crianças, principalmente no interior do Estado. Francisca, de Corumbá e Ana Regina, de Guia Lopes da Laguna, que já possuem experiência com outras técnicas artesanais, são algumas dessas novas representantes da bela e singela arte.

    “Eu até imagino as crianças brincando”, se anima Ana Regina. “Eles são de uma geração que não brincou da forma como fazíamos. Então será bom para a gente ensinar outras formas de brincar, interagir”, explica, mostrando como se joga o coquinho, uma espécie de malabarismo com pequenas colchinhas de pano. “Joga uma no ar enquanto pega a que cai. Fazíamos isso com o coquinho roído. Agora temos essas almofadinhas mais leves e bonitas”.

     

    Tradição e reconhecimento

    Encerrando a agenda institucional da Semana do Artesão, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) realiza na próxima quarta-feira (25), a partir das 19h, no Plenário Júlio Maia, a Sessão Solene de Entrega da Medalha Conceição dos Bugres, em homenagem a pessoas e associações que se destacaram no Estado pelo artesanato que produzem. 

    Mais do que uma vitrine da produção artesanal, a Semana do Artesão reforça o papel do segmento como expressão da identidade cultural do Estado. As peças carregam referências do Pantanal, das culturas indígenas e das influências de fronteira, refletindo a diversidade e a riqueza cultural sul-mato-grossense.

    Realizada desde 2007, é promovida pela Fundação de Cultura, por meio da Diretoria de Artesanato, Moda e Design, em parceria com instituições e entidades representativas do setor. A ação integra as políticas públicas de valorização da cultura e busca consolidar o artesanato como um setor econômico sustentável e estratégico para o desenvolvimento regional, aliando geração de renda, capacitação e intercâmbio cultural.


    Fonte: Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul – FCMS